Deus, coitado, está desiludido. Pelo menos é isso que o título tradução da Editora Casa das Letras do livro de Richard Dawkins, The God Delusion, nos leva a crer. Uma tradução muito melhor do título é Deus, um Delírio, da Companhia das Letras.
Agora, eu sei que o trabalho de tradução é extremamente ingrato, pois já atuei bastante com isso. Quando o serviço do tradutor é bem executado, você sequer se lembra que ele existe, mas quando é ruim é como ter o proverbial elefante bêbado cambaleando dentro da loja de porcelana. Ou seja, o coitado só é lembrado quando pisa na bola.
Mas eu dou valor ao meu rico dinheirinho e as traduções já quebraram muitos livros para mim. O Thiago Doria recentemente deu alguns exemplos das atrocidades que encontramos por aí.
Agora, eu não sou nenhum nazista gramatical, mas não dá pra ler frases como “qual é o seu ponto” (What’s your point), aventuras “legendárias” (a palavra existe, mas falamos muito mais lendário), “Cristo Peter” (ninguém fala “Cristo, Fulano” no Brasil). Enfim, uma série de erros de contexto a todo momento. Obviamente existem muitos tradutores bons, mas eu sempre fico com a sensação de roleta russa quando compro um livro traduzido.
A experiência me mostrou, no entanto, que alguns tipos de tradução são mais seguras. Por exemplo, traduções do espanhol (Borges e Cervantes) e traduções de grandes nomes da literatura em geral. Porém nesse último, também encontramos problemas, como no caso da Martin Claret. A editora é acusada de copiar a tradução de dezenas de obras e só mudar uma ou outra palavrinha para esconder a ixperteza, e tacar o copyright da tradução para um tal de Pietro Nassetti.
Para maiores informações sobre as práticas discutíveis da Martin Claret, visite o blog não gosto de plágio. Sério, até mesmo tradução de Machado de Assis para o português eles fizeram. E a Biblioteca Nacional ainda registrou o Quincas Borba “traduzido” por Pietro Nassetti. Palmas para eles!
Apenas para dar mais um exemplo de tradução de qualidade, menciono a série Mar de Histórias: Antologia do Conto Mundial. Esses dez volumes foram os melhores 250 reais que eu gastei na minha vida, alguns anos atrás. A série organizada por Aurélio Buarque De Holanda Ferreira e Paulo Ronai é um excelente exemplo do cuidado que deveria sempre ser reservado à tradução. Vou reservar no futuro um espaço para a resenha desses tomos aqui na Taverna.
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Quem dera esse mal só acontecesse na literatura. As traduções de filmes também são terríveis e caem na mesmice (só ver a Sessão da Tarde uma semana para perceber isso). Difícil achar bons tradutores, de fato.
aaahnnn? ou foi vc que montou a capa de brincadeira?
em todo caso, ri bastante
antigamente até havia mais críticas a traduções, o que era muito bom, desde que o comentador não saísse tripudiando, pois ajudava o pessoal a ficar mais atento também. deve ter sido algum acordo de cavalheiros entre editoras e meios de comunicação que acabou reduzindo um pouco isso.
já devo ter cometido um monte de gafes horrorosas, ainda que não me lembre assim de bate-pronto, mas tem coisas que fiz que até hoje não engulo, mesmo não estando redondamente erradas. é, tradução é um problema. felizmente existem muitos tradutores maravilhosos, que permitem à gente ter uma leve ideia de como deve ser legal ter aquela língua do original como língua materna.
obg pela menção ao nãogosto!
Denise, por incrível que pareça eu não montei a capa. A tradução do título pela Casa das Letras foi essa mesma. Essa capa está em vários blogs e até no Librarything. Segue o link no Skoob:
http://skoob.com.br/livro/sobre/24168
E uma volta críticas de traduções seria algo excelente mesmo. Evitaria muitas descobertas desagradáveis e me incentivaria a ler mais coisas em português. Uma pena.
Abs
Há editoras que tem um compromisso profundo com o bom trabalho de tradução. A Nova Fronteira, pelo que ouvi falar, é um desses casos.
Gostaria de saber quais os livros de Jim corbett, traduzidos para o portugues e onde encontra-los.
Obrigado
Armando Malato
Armando, até onde sei, infelizmente, não há nenhum livro de Jim Corbett traduzido para o português.
É uma mesmo uma pena, pois Man-Eaters of Kumaon é fascinante.
Como não há livros de Jim Cobertt, traduzidos para o português, queiram informar se existem traduções para Karamojo Bell.
Muito obrigado.
Armando Malato
Vejo que você se interessapela caça de elefantes, Armando, mas também desconheço qualquer tradução para os livros de Walter “Karamojo” Bell.
Acho que no Brasil é mais fácil caçar um tigre do que uma tradução desses livros mais obscuros.
O livro mais famoso de Karamojo Bell é “The Wanderings of an Elephant Hunter”, segue link da Amazon, em inglês. Espero que ajude na sua caçada.
http://www.amazon.com/Wanderings-Elephant-Hunter-W-D-M-Bell/dp/1571572244/ref=reg_hu-wl_item-added
Prezado Solari
Este é um dos meus “hobys”. Os outros são a música e as mulhesres, principalmente a dos outros, que são mais cobiçadas, que também não deixa de ser um tipo de “caçada”.
Um grande abraço
Armando Malato
Ixe Armando, cuidado que esse seu segundo hobby é mais perigoso que caçar elefante armado só com um graveto, hehe
Abs,
Éé… Sempre que se tem um hobby perigoso, tal como caçar elefante armado só com um graveto significa que está fazendo algo ERRADO! Cuidado! Salve sua pele e faça o CERTO, o justo.
Solari,
Deixando de lado as bricadeiras, diga -me o que acha da tradução feita para o livro de Budd Schulberg, “A Trágica Farsa”. Será que corresponde ao original?
Mais um abraço do,
Armando Malato
Não sei dizer, Armando. Não conheço o livro ou a tradução.
Solari
Torna-se muito agradável com você, ao se perceber seu vasto conhecimento e interesse de informar os frequentadores de seu blog. A propósito desejo informar-lhe que nessa questão de literatura, sou muito eclético. Não me detenho somente em assuntos de caçadas, embora goste muito.
No momento estou relendo “O Colecionador”, de John Fowles, com a tradução de Fernando de Castro Ferro, que muito me agradou. Razão pela qual voltei a lêr. Gostaria de saber a sua abalizada opinião sobre esta tradução.
Obrigado pela sua atenção e uma bôa noite.
Armando Malato
Olá Armando,
Minha opinião não é tão abalizada, e nem o meu conhecimento lá muito vasto, de forma que eu não saberia avaliar traduções específicas. Mas no final das contas, se você a apreciou, isso é o que conta.
Até fiquei com vontade de ler O Colecionador depois de ver a história. Quem sabe para frente.
Por sinal, já que você gosta de caçadas, fiz uma resenha do Man-eaters de Kumaon aqui no blog se você quiser dar uma olhada. Segue link:
http://tavernafimdomundo.wordpress.com/2009/05/27/man-eaters-of-kumaon-de-jim-corbett/
Olá,
Queria saber se existe o contrário, alguma obra que na lingua original seja medíocre e que torna-se obra prima devido a uma tradução, uma vez alguém me falou algo assim mas não lembro. Queria saber se isso pode acontecer e por que, caso exista mesmo.
Obrigado
Um colega meu me contou uma coisa interessante que ele leu, que o Borges escreveu sobre traduções. Que mesmo que ele não possa ler as Mil e Uma Noites no original por não compreender árabe, ele pode ler diversas traduções das Mil e Uma Noites e, por meio dos diferentes escolhas dos tradutores, talvez compreender a obra até melhor que o original.
Acho que foi isso. Vou pesquisar o trecho exato que acho que vale um post.