Costumo andar distraído pelas ruas. Eu costumo andar escrevendo, sem colocar as palavras no papel, mas pensando em saídas e possibilidades para meus textos. Claro que já quase fui atropelado mais de uma vez, mas o assunto agora é outro.
É sobre aquele cachorro. Aquele maldito cachorro. Um labrador da rua aqui do lado. Chego todo dia já de noite no metrô e vou andando pra casa, envolto em meus pensamentos. O safado me assusta todo o santo dia. Todos, menos naquele.
É claro que os cachorros latem quando alguém passa pelas ruas, nada de novo nisso, mas o desgraçado do cachorro elevou o ato de me assustar a uma arte. Ele não late quando me vê, não, ele é esperto demais pra isso. Como um experiente franco atirador, ele me aguarda nas sombras até que eu esteja próximo o bastante para que ele avance contra o portão latindo, me fazendo pular para o lado, xingando de susto. E eu juro pra vocês, dá pra perceber que por trás daqueles olhos caninos ele está me chamando de otário e rindo da minha cara. Juro pra vocês.
Agora, era de se imaginar que depois de uma ou duas vezes eu me acostumasse com o bicho, e já viesse preparado para ele. Mas infelizmente não é assim que as coisas funcionam comigo. Por mais que eu me lembre que preciso me preparar para o labrador no metrô, quando caio na rua já começo a pensar que aquele personagem poderia na verdade ser o herói da história, mesmo com um lado negro de maldade criado devido à sua infância dif.. BAM! O safado me assustou.
Por um bom tempo ele se tornou minha obsessão. Meu oposto. Minha Moby Dick. Sonhava no dia em que eu me lembraria antes e estaria preparado. Inclusive ele me assustou um dia em que eu sonhava em estar preparado. Sim, o desgraçado é bom.
Porém o destino interveio um dia, talvez por piedade, talvez por capricho. Chegara a hora da minha tão aguardada vingança.
Um dia, pela primeira vez nos três anos que moro aqui, eu me lembrei do cachorro ao entrar em sua rua. Lancei meu olhar para frente para ver o desgraçado e quem sabe mostrar o dedo do meio pro filho da mãe enquanto ele latia em vão conforme eu passava, mas o universo foi muito mais bondoso comigo naquele dia. Com a cabeça apoiada sobre as patas bem ao lado do portão, ele dormia. Dormia como se fosse novamente um filhote. Dormia como que envolto em sonhos caninos de paz e tranqüilidade. Eu soube na hora o que devia fazer.
Retirei em silêncio um pára-choque quebrado da caçamba ao lado. Levantei o objeto e PÁ!, bati com tudo do lado da cabeça do safado, fazendo-o saltar longe de susto, olhando freneticamente aos lados como em busca da ameaça que o acordara. A cena inundou o meu corpo com uma sensação quase orgásmica.
Olhei fundo nos olhos do meu oponente e falei “Não é tão engraçado quando é com você, né?”. E, juro pra vocês, deu pra perceber que mesmo sendo um cachorro ele entendeu cada palavra do que eu disse.
Também foi só dessa vez. De lá pra cá ele me assusta de novo todo o santo dia. Mas a satisfação daquele único momento… Isso ele nunca vai poder tirar de mim.
Baseado em fatos verídicos.
Solari, taverneiro