O prazer de folhear um livro; agora em vídeo na Taverna

Um dos inconvenientes da compra de livros pela internet é que muitas vezes fica dificil imaginar pela imagem da capa do livro seu tamanho, dimensões, peso, capa dura, maleável ou capa solta, versão pocket, etc. Essas informações nem sempre estão presentes nos sites de venda, não raro estão erradas, e ao menos do meu lado, eu tenho dificuldade em visualizar como é um livro de 16×23 cm com 260 g.

E hoje em dia nós temos essa coisa chamada filmadora, e aquela outra coisa chamada YouTube e unindo essas duas com outra coisa chamada livro, a Taverna Fim do Mundo vai incluir pequenos vídeos mostrando características marcantes da obra, ou apenas para dar uma ideia das dimensões aos frequentadores. Acredito que obras de quadrinho e mangá, algumas na lista de resenhas desta Casa, se beneficiarão particularmente desse novo tratamento.

Por favor, critiquem à vontade o vídeo de estudo acima e mandem suas sugestões de como vocês acham que ele poderia ser. Eu tentei ter alguns cuidados básicos como caprichar na iluminação, escolher um fundo pertinente e evitar que felinos curiosos invadissem o frame da câmera e tive sucesso relativo nesses quesitos. Estudo a inclusão de trilhas sonoras ou comentário no áudio. Vamos ver.

Outra modificação nas resenhas da Casa será a inclusão do número de ISBN dos tomos, uma espécie de RG universal dos livros que facilita a sua identificação. Cuidado que eu aprendi ser valioso em minha ainda breve carreira catalogando livros para uma certa livraria virtual e já estava na hora de colocar isso por aqui.

Abraço a todos os frequentadores e fiquem ligados em outras novidades planejadas para a Taverna Fim do Mundo no próximo ano.

Solari, taverneiro

Spin; de Robert Charles Wilson

SpinÉpico acompanha a história da Terra quando as estrelas apagam dos céus por bilhões de anos

A história de Spin começa, diz o livro, “depois de amanhã”. Um grupo de garotos está observando os céus em uma noite tranquila quando as estrelas e a lua se apagam subitamente do céu. Como se Deus tivesse desligado a caixa de força do Universo.

O Sol, curiosamente, dá as caras na manhã seguinte, mas as investigações revelam que se trata de um simulacro, um sol projetado apenas para manter a vida no planeta, que é cercado por uma misteriosa membrana. Além de interceptar a luz, essa barreira faz com que o tempo passe mais rápido na Terra do que no restante do Universo. Muito mais rápido. Nos trinta e tantos anos terrestres que a história engloba, se passam mais de 300 bilhões de anos no exterior.

Spin foi o vencedor do Prêmio Hugo em 2005 e foi escrito por Robert Charles Wilson, também responsável por Darwinia, já contemplado na Taverna. Trata-se de uma ficção científica no estilo “hard”, ou seja, criada a partir de pesquisa rigorosa, particularmente na física e biologia, com doenças fictíceas de surpreendentemente profundidade entre os sobreviventes do evento que assola o planeta.

Há um crescendo intrigante na história conforme as pessoas descobrem aos poucos do que exatamente se trata a membrana e quem teria fez isso, alienígenas chamados de “os hipotéticos” pela imprensa. Os anos vão transcorrendo e o leitor acompanha como seitas religiosas surgem e caem, novas ordens políticas aparecem, conflitos pipocam, interesses cruzados se chocam. As descrições são bem realistas e parecem ser mesmo algo que você leria na mídia depois que algo semelhante àquele evento, chamado de Spin, acontecesse.

O artifício da mudança relativa do tempo também é empregado de forma bastante inteligente. Em determinado momento, é delineado um ousado plano de colonizar Marte como forma de perpetuar a raça humana. Como o tempo passa exponencialmente mais rápido fora da Terra, os foguetes com microorganismos lançados em intervalos de poucos minutos uns dos outros, chegam a marte com centenas de anos de diferença e vão por milhões de anos criando uma atmosfera no planeta vermelho. Colonos humanos são enviados e em dois anos um dos representantes retorna à Terra. Membro de uma civilização de mais de 100 mil anos de tradição que os terráqueos criaram há apenas dois anos atrás.

Uma crítica que faria ao livro, é que ele poderia ser mais curto. A história se alonga demais, e possui um par romântico que não me criou lá muita empatia. É difícil nos dias atuais encarar um casal que se ama platonicamente por décadas, pois “algo os separa”. O autor poderia se concentrar mais no intrigante mistério do Spin do que em pares clichês. Após a tensão também ser segurada por tanto tempo –o livro tem mais de 450 páginas na versão dita “pocket”- eu imaginava que apenas um final muito genial poderia fechar a coisa de forma satisfatória, e infelizmente ele não veio.

Objeções menores, no entanto. Spin é um excelente livro de sci fi que consegue transmitir a sensação da insignificância do ser humano na imensidão do cosmo.

o bom: pesquisa rigorosa; tensão crescente; sensação épica; acontecimentos intrigantes

o ruim: par romântico não convenceu; longo demais

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Contos Fantásticos no Labirinto de Borges; autores diversos, organizado por Braulio Tavares

ContosFantasticosDoLabirintoDeBorges Contos relacionados a, ou discutidos por, Borges que mostram os bastidores da criação de sua obra

Uma coletânea de contos que parte de um princípio genial: ao invés de analisar o que um autor escreve, analisar aquilo que ele leu. Isso é especialmente interessante se tratando de Jorge Luis Borges, que além de escritor é praticamente um gênero literário. Apesar de aproximações aqui e ali, seus trabalhos não se enquadram em ficção científica, fantasia, absurdo, realismo fantástico ou no que for. Contos do Borges são contos do Borges.

Cada um dos 18 contos, tanto de nomes conhecidos como H. G. Wells, Poe e Ray Bradbury como autores já mais obscuros atualmente, traz antes de si uma breve biografia do autor e o contexto no qual ele se intersecta com a obra borgiana. Ao final, temos um excelente postfácio assinado pelo organizador, o jornalista Braulio Tavares, que por sinal mantém o blog Mundo Fantasmo com ensaios sobre literatura, ficção científica, horror, fanzines, teorias diversas e o que mais vier. Esses prefácios também trazem trechos com considerações que o próprio Borges deixou em seus ensaios e cartas sobre os contos da coletânea.

Entre os contos que mais apreciei estão “O Abacaxi de Ferro”, de Eden Phillpotts que lida da obsessão inexplicável de um homem com um, bem, abacaxi feito de ferro. “O Ovo de Cristal” de H. G. Wells, que traz a mesma ideia do universo em um único ponto contida no “Aleph”. E talvez o que mais gostei foi “Um Artista da Fome”, de Kafka, sobre um artista circense cuja apresentação consiste em ficar em uma jaula passando fome por dias a fim, aos olhos curiosos dos espectadores, que na verdade se interessam mais em ver os animais.

Me surpreendeu a grande incidência de contos policiais na coletânea, interesseque inicialmente não associava muito com o escritor argentino, mas que de fato fazsentido se pensarmos no apreço de Borges pela racionalidade e pensamento lógico em sua literatura (paradoxos, questões matemáticas, etc). Apesar dos policiais não serem muito de meu interesse, achei as opções escolhidas interessantes para um turismo literário a este gênero.

No postfácio, Tavares consolida diversos temas recorrentes em Borges. Cenários como a manipulação do tempo para que a intensidade de vidas se passe em um instante, artefatos alienígenas que escorregam entre as rachaduras da realidade até chegar ao nosso mundo, livros não-escritos, simulacros, obsessão por objetos quaisquer, mundos apócrifos, labirintos e outros assuntos são analisados de forma clara e profunda. O livro também traz ilustrações de Romero Cavalcanti que capturam de forma bela o universo borginano.

A revisão da editora Casa da Palavra dá uns dois ou três escorregões em erros de digitação, mas algo que pouco depõe contra essa obra que obviamente foi feita por grandes interessados na obra borgiana. Trata-se de uma forma criativa e única de analisar esse que é um dos mais fascinantes autores do século 20.

o bom: belas ilustrações; contos variados e interessantes; contexto do conto na obra de borges e breve biografia dos autores; postfácio fascinante sobre temas recorrentes em borges

o ruim: alguns erros de digitação e gramaticais que eludiram a revisão

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Viagem ao Centro da Terra em cordel; por Costa Senna

ViagemAoCentroDaTerraEmCordelClássico sci fi adaptado ao cordel ficou como comer rapadura com champagne

Gosto muito de cordel, apesar do meu pequeno conhecimento no assunto, que se limita a duas revistinhas compradas em uma feirinha, mas muito relidas e guardadas com bastante carinho. E qual não foi a minha surpresa quando encontrei essa adaptação em cordel para um dos clássicos da ficção científica; Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne?

Por mais que eu esperasse o melhor de dois mundos, e quisesse muito apreciar, tive uma relação complicada com Viagem ao Centro da Terra em Cordel. Aquele humor matreiro encontrado em João Soldado, Zé Bico Doce e no Auto da Compadecida não está presente aqui, com a história sendo narrada em um tom muito sério, europeu. E depois de algumas páginas, quando o artifício inusitado do cordel sci fi perdeu um pouco a novidade, a narrativa ficou tediosa. A obra também podia ser melhor adaptada. Ela possui grandes buracos narrativos e para quem não conhece a história fai ficar difícil compreendê-la de forma satisfatória. A minha impressão é que a história foi simplificada demais para atingir um público infantil, quando poderia ter uma adaptação mais cuidadosa.

E por mais que eu compreenda a necessidade de remuneração do autor e os esforços da editora Nova Alexandria, eu não acho 25 reais o preço justo por um livro de 48 páginas que se lê em pouco mais de meia hora, cordel ou não cordel. Ainda mais para um formato com histórico de grande acessibilidade popular devido também ao preço. No evento literário no qual eu encontrei o livro, alguém levantou essa questão e os cordelistas responderam que os tomos são muito comprados pelo sistema de educação para ajudar a difundir o cordel nas escolas, portanto ele não estaria sendo “elitizado”. Enfim talvez seja bom do ponto de vista da educação, mas não estou tão certo se é para os consumidores em geral.

Eu desejo muito que esse renascimento do cordel dê certo, pois tenho grande apreço por ele e considero esse formato um patrimônio cultural do nosso país. Também tenho grande respeito pelo movimento cordelista, muito ativo em São Paulo, e pelos autores que ajudam a manter viva essa nossa poesia, mas Viagem ao Centro da Terra em Cordel não me agradou e fica difícil recomendá-lo a amantes do cordel ou da ficção científica.

Quem quiser saber mais, leia esta matéria sobre esse movimento de adaptações em cordel que eu fiz para a Livraria da Folha.

o bom: ilustrações interessantes

o ruim: preço; buracos narrativos; adaptação simplista

links[livraria da folha][editora]

O Barão nas Árvores; de Italo Calvino

OBaraoNasArvoresUm menino que sobe nas árvores e jura nunca mais descer e passa a vida entre galhos e folhas

O Barão nas Árvores é um romance de Italo Calvino que narra a história de Cosme Chuvasco de Rondó, filho de nobres decadentes da Itália do final do século 18 que sobe nas árvores para não ter que comer escargots e jura nunca mais descer. O que começa como uma teimosia infantil vai ganhando proporções absurdas conforme o jovem barão passa toda a tarde nas árvores, atravessa a noite, os dias, meses e anos até envelhecer sem nunca mais botar os pés no chão.

E se engana quem acha que ele se tornou um ermitão. O jovem se torna surpreendentemente ativo no cotidiano da região de Pelumbria e acaba tendo uma vida muito mais plena do que o restante de sua família, que permaneceu grudada ao solo. Ele fica um tempo no quintal de sua casa, mas logo se aventura no pomar vizinho e para o bosque. Cosme aprende a caçar com um bassê que encontra – chamado de Ótimo Máximo – conforme cresce vive casos amorosos entre os galhos, escreve tratados de filosofia política, faz obras de engenharia para canalizar uma cachoeira para entre os galhos, troca correspondências com Voltaire e Rousseau, fica amigo de um bandido famoso, enfrenta exércitos invasores da Áustria, acompanha saqueadores de pomares e até mesmo enfrenta piratas maometanos em alto mar sem nunca colocar os pés no deque do navio.

O autor faz um excelente trabalho de dar vida a um mundo arbóreo repleto de galhos, espinhos, ramos, frutos, animais e cachoeiras. A todo o momento parece que você está observando as pessoas e os acontecimentos por cima, junto do barão. Essa capacidade de imersão do leitor em um ângulo esdrúxulo é uma das grandes jogadas de Calvino e vale a pena ser provada. O livro tem um tom despretensioso e leve, ao mesmo tempo em que traz momentos de humor e beleza bucólica.

Já a capa dessa edição da Companhia das Letras é algo que não me entra na cabeça. Porque eles escolheram para esse livro, que pede uma bela ilustração de árvores ou bosques verdejantes, colocar uma capa azul, ou roxa, ou violeta, ou lilás – o daltonismo não me permite avaliar – com alguns quadrados brilhosos? Imagino que faça parte de uma coleção, mas, enfim, me pareceu uma pena.

Tradução muito boa, dinâmica e com vocabulário pertinente, sem deixar cair o humor dos diálogos e transmitindo com beleza as descrições. Nunca me imaginei lendo uma tradução, mas sim lendo um livro. Um prazer cada vez mais raro com as traduções tabajara que encontramos por aí.

o bom: realismo fantástico; tradução boa; descrições; diálogos; humor; narrative intrigante

o ruim: capa sem sal

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A biblioteca pessoal de Neil Gaiman

Biblioteca Neil GaimanEstava conversando sobre isso um dia desses com um comparsa e resolvi colocar aqui; fotos da biblioteca pessoal de Neil Gaiman.

Construída no porão de sua casa, ela conta com livros de parede a parede, do chão ao teto, ambiente bem iluminado e essa poltrona que não deve ser nada mal. Agora faz sentido uma frase que eu li em seu blog tempos atrás: “Casa é onde os livros estão”. Se eu tivesse um retiro desses, aí que eu entocava de vez.

Clique na imagem para acessar mais informações e fotos no blog do Shelfari.

Formaturas Infernais; diversas autoras

FormaturasInfernais1Escritoras de bestsellers de chick lit se reúnem em coletânea de contos de horror em formaturas

Chick lit é um termo usado em inglês para livros voltados a leitoras adolescentes ou na faixa dos 20 a 30 anos sobre relacionamentos e repletos de referências pop do universo feminino. Exemplos desse gênero informal são séries como Gossip Girl e Diário de Uma Princesa e talvez poderíamos incluir a ridiculamente popular série Crepúsculo como uma variante chick lit de horror. Grosso modo, são comédias românticas em literatura, com formato semelhante a Sex and the City.

Formaturas Infernais (Prom Nights From Hell) é um breve livro que reúne contos de autoras de sucesso nesse gênero, como Meg Cabot, autora de Diário de Uma Princesa, e Stephanie Meyer, criadora de Crepúsculo, misturando horror e romance. E o taverneiro se propôs a adentrar onde nenhum marmanjo jamais foi para ver o que diabos essa mulherada gosta tanto nesse tipo de literatura.

A reinvenção dos romances de cabeceira

O gênero chick lit me parece ser a reinvenção dos antigos romances de cabeceira das donas de casa de outrora, aqueles com o marujo sem camisa segurando a protagonista em seus braços e com títulos do tipo “Oceanos do Desejo”; mas no chick lit voltados para mulheres mais jovens e de um contexto urbano e moderno.

O que percebi, e que talvez seja a razão tanto do sucesso quanto da aversão para livros como Crepúsculo, é que as histórias dependem muito da semelhança entre a protagonista e a leitora para funcionar. Diferente de um Dom Quixote da vida, no qual você não precisa ser um fidalgo fantasioso para apreciar, nesse tipo de literatura fica meio difícil se identificar com a personagem que tanto menciona ombros largos e olhos azuis e profundos a cada instante, por exemplo. Não digo que é impossível, mas a história é claramente estruturada com um perfil de leitora em mente.

As histórias de Formaturas Infernais puxam mais para o lado romântico do que do terror, muitas vezes tratando temas como vampiros, zumbis, demônios e fantasmas com bom humor e diálogos afiados (percebe-se aqui muita influência de diálogos rápidos de sitcoms como Friends). Diria que um única história vai para o terror de fato, O buquê, de Lauren Myracle, quando as restantes parecem desculpas para mostrar romances entre as moçoilas e os rapagões sobrenaturais. As protagonistas, por sinal, são muito parecidas em si e salvo uma ou outra diferença poderiam muito bem ser a mesma pessoa.

É uma pena que quase todos os contos parecem meio que acabar pela metade ao invés de atingir uma conclusão final. A colega que me emprestou o livro sugeriu que são autoras acostumadas a escrever séries longas e não possuem o jogo de cintura para fechar a narrativa no nocaute e não nos pontos, como é necessário nos contos, e essa observação me pareceu bem pertinente.

Agora, um sexto conto dessa coletânea poderia se chamar “O terror veio da tradução”, porque, rapaz, todas as minhas reclamações de praxe com relação a traduções tabajara infelizmente estão aqui. Não vou entrar em detalhes e exemplos, mas a tradução literal de expressões que não fazem sentido em português é um problema.

Mesmo não sendo o público-alvo de Formaturas Infernais, eu sempre aprecio breves incursões em gêneros inusitado que são minha praia e achei uma leitura muito divertida. E convidaria a todos os barbados que sentem calafrios ao ver um pôster de Crepúsculo que tentem ao menos dar uma espiadinha por curiosidade. Quando ninguém estiver olhando, é claro.

Agradecimentos à comparsa Fernanda por ter me emprestado o dito cujo.

o bom: contos criativos; diálogos afiados; um dos contos é particularmente assustador

o ruim: tradução tabajara; temas femininos que não apelam muito aos barbados; contos parecem acabar pela metade

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How to Talk About Books You Haven’t Read de Pierre Bayard

HowtoTalkAboutBooksYouHaventRead“I never read a book I must review; it prejudices you so” – Oscar Wilde

“Existe mais de uma maneira de não ler, das quais a mais radical é não abrir nenhum livro”. Essa primeira frase do primeiro capítulo já dá o tom irônico que permeia “Como Falar dos Livros que não Lemos?” (Editora Objetiva, 2008), uma obra que por trás de uma superfície de deboche esconde uma teoria surpreendentemente profunda de como nossa sociedade, e cada um de nós, deve se relacionar com os livros.

O autor Pierre Bayard comenta ainda no início que, na infeliz posição de professor de literatura francesa na Universidade de Paris, se deparou diversas vezes com o desafio de ter de comentar livros dos quais apenas ouvira falar. Salvo de questionamentos embaraçosos devido ao fato de que boa parte de seus alunos também jamais tivera passado os olhos pelas obras contempladas no curso, Bayard decidiu se aprofundar no tema da não-leitura, que segundo ele é tão mal visto quanto corriqueiro em círculos intelectuais e acadêmicos.

O motivo disso é muito simples. Se alguém não fizesse mais nada na vida além de ler, do berço ao túmulo, ele não passaria por mais do que algumas dezenas de milhares de obras. Quase nada se pensarmos nos milhões e milhões de livros que foram escritos pela humanidade até hoje, e dos milhares que são lançados a cada novo ano. Dessa forma, nem o mais fervoroso dos leitores tocou sequer uma ínfima parcela da produção intelectual da humanidade e até os maiores literatos possuem em sua formação lacunas de clássicos considerados canônicos.

Tais lacunas se tornam segredos guardados a sete chaves, pois, na sociedade ocidental, não ler é considerado motivo de vergonha e chacota. Porém, Bayard defende que discorrer sobre livros que não lemos devia ser a atitude mais natural do mundo, afinal, como foi dito, ninguém entre nós leu quase nada na realidade. O autor propõe que mais importante do que ler ou não todos os clássicos, é fundamental possuir uma “biblioteca coletiva” com livros que são criados assim que entram no conhecimento das pessoas, e não quando são lidos de fato. Ou seja, muito mais vale alguém que saiba pensar sobre ideias e livros – e aqui vale inventar tomos que não existem ou falar de clássicos que nunca o interlocutor viu – do que ser uma enciclopédia ambulante de citações e passagens.

Formas de não-ler encontradas em livros não lidos

“Como Falar dos Livros que não Lemos?” define diversas formas de não-leitura, como obras que não conhecemos, ou que folheamos, ou ouvimos falar, ou ainda que esquecemos, e fornece análises de como se portar em encontros com literatos, com o autor ou até para tentar impressionar um grande amor. Cada capítulo é relacionado com um exemplo encontrado na literatura – alguns até mesmo de livros que Bayard afirma que leu de fato.

Assim, o autor menciona o bibliotecário da sátira “O Homem sem Qualidades”, de Robert Musil, que conhecia todos os tomos de uma biblioteca com milhões de volumes sem nunca ter aberto nenhum deles, pois apenas lia livros que ensinam a catalogar outros livros. O autor toca as curiosas relações de Montaigne e Oscar Wilde com os livros. O primeiro que, devido à sua memória notoriamente falha, esquecia tudo o que lia após uns poucos anos e o segundo que sequer abria obras que ia resenhar para “não se deixar influenciar” por seu conteúdo. Até Umberto Eco faz uma aparição nas considerações do autor, uma vez que o escritor italiano, em seu romance “O Nome da Rosa”, inventou com riqueza de detalhes como seria a “Comédia de Aristóteles”, obra que foi perdida ainda na antiguidade.

No final, “Como Falar dos Livros que não Lemos?” é um ensaio bem-humorado que propõe uma forma mais leve de encararmos nossas deficiências intelectuais e merece ser lido ou não-lido por todos os amantes da literatura.

Obs: matéria criada para a Folha Online através da Livraria da Folha.

o bom: ensaio divertido e profundo; exemplos de não-leitura retirados do cinema, livros e biografias

o ruim: pouco a reclamar, uma ótima opção de leitura

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The Dogs of War; de Frederick Forsyth

DogsOfWarRomance que se revela um verdadeiro guia passo a passo de como dar um golpe militar com mercenários

Na década de 70, no país ficional de Zangaro, republiqueta ditatorial na costa oeste da África, uma corporação londrina de mineração descobre no país o equivalente a dez bilhões de dólares em platina. O problema  é como extrair os minérios, uma vez que, além do ditador ser um maluco paranóico de carteirinha, ele está mais alinhado com os russos do que com o ocidente. A solução que o líder da companhia, “sir” James Manson, encontra é contratar um grupo de mercenários e colocar alguém mais disposto a fazer negócios no lugar do atual chefe de Estado de Zangaro. Em cem dias.

O livro tem uma distribuição bem curiosa para uma obra que lida com guerrilha e mercenários. Para uma publicação de 368 páginas, até a página 350 sequer um tiro foi dado, salvo para testar se as armas estavam funcionando. E não aconteceram mais que duas mortes; um soldado zangarense intrometido e um matador de aluguel que teve a sua cabeça separada do corpo e colocada na caixa postal do patrão que o contratou para matar o líder dos mercenários. O que diabos os tais cães de guerra ficaram fazendo esse tempo todo do livro?

Ora, foram para o banco na Suíça abrir uma conta para transferência de dinheiro para comprar suprimentos, foram fundar uma empresa na Itália para registrar um barco legalmente e não ter problemas com a guarda costeira, um pulinho na Tchecoslováquia para comprar 400 mil balas de 9mm, na Bélgica para adquirir sub-metralhadoras de um ex-nazista, uma chegada no Marrocos para arranjar alguns africanos para dar uma mão na invasão e assim por diante.

The Dogs of War, lançado em 1974, é um livro que se preocupa muito mais com a logística para se equipar e invadir um país do que com a guerra em si, o que deixa transparecer o grande conhecimento do autor Frederick Forsyth, que foi correspondente de guerra pela Reuters e BBC por muitos anos, inclusive durante a guerra civil da Nigéria. Ele escreve romances desse tipo até hoje, agora centrados no Iraque. De fato, as descrições logísticas em seus romances são tão realistas que alguns governos já tiveram problemas com roubo de identidade, cujo processo é descrito em seus romances passo a passo como uma receita de bolo. Para se ter uma ideia, quando o terrorista Carlos, o Chacal, foi capturado ele tinha um livro de Forsyth na mala. Na realidade, ele recebeu seu apelido justamento por causa do romance: O Dia do Chacal.

Se você já começa o livro ciente de que ele se centra na logística, não há do que reclamar. Porém muitos compraram The Dogs of War achando que se tratava de um livro de guerra comum e se decepcionaram com a falta de ação. Um grande problema dessa versão de bolso que adquiri é que o tamanho da letra compete com o de uma bula de remédio de tão minúscula, chegando bem próximo ao ilegível.

Mas o embate final valeu sim o livro para mim. O autor conseguiu fechar com poucas e violentas páginas a história e ainda colocar uma enorme reviravolta na última página que muda completamente a compreensão das motivações das personagens sem parecer Deus ex machina. Para quem quer um livro de guerra que transmite uma tensão de ver se um grande plano vai funcionar, The Dogs of War é o livro.

o bom: realismo ao mostrar os jogos políticos e logísticos; final empolgante; reviravolta na última página muito bem aplicada

o ruim: letra menor que bula de remédio; ênfase extrema na logística e não no combate pode não agradar

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Exercício de descrição

É frio. Possui um odor que lembra o cobre.

Duas faixas grossas de metal reluzente, uma dourada e outra prateada, se estendem por linhas paralelas que lentamente dobram sobre si mesmas até formar um círculo completo. É um objeto de surpreendente peso para suas dimensões, dando uma impressão nítida de solidez ao mesmo tempo em que parece solitário quando visto na palma da mão, mas ganha familiaridade ao ser encaixado no anelar esquerdo, se aconchegando de forma natural em torno da carne macia do dedo.

Há uma inscrição em letra estilizada que gira em torno de toda a sua extensão interna. Lê-se: “De todos os filhos do mundo”. Em algum lugar anda outro anel, um pouco menor, mas também bicolor e pesado e claramente reconhecido como irmão deste primeiro, e que carrega dentro de si a segunda metade desta sentença. Uma frase dividida pela metade que pede por sua segunda parte, assim como uma vida dividida pela metade que anseia por outra que a complete.

Dentro da segunda aliança está escrito: “o nosso se chama amor”. É o refrão da letra de uma música escrita por um amigo mútuo, capaz de rompantes de genialidade em meio à sua loucura costumeira, que ouviram quando estavam se apaixonando e decidiram se casar.