Viagem ao Centro da Terra em cordel; por Costa Senna

ViagemAoCentroDaTerraEmCordelClássico sci fi adaptado ao cordel ficou como comer rapadura com champagne

Gosto muito de cordel, apesar do meu pequeno conhecimento no assunto, que se limita a duas revistinhas compradas em uma feirinha, mas muito relidas e guardadas com bastante carinho. E qual não foi a minha surpresa quando encontrei essa adaptação em cordel para um dos clássicos da ficção científica; Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne?

Por mais que eu esperasse o melhor de dois mundos, e quisesse muito apreciar, tive uma relação complicada com Viagem ao Centro da Terra em Cordel. Aquele humor matreiro encontrado em João Soldado, Zé Bico Doce e no Auto da Compadecida não está presente aqui, com a história sendo narrada em um tom muito sério, europeu. E depois de algumas páginas, quando o artifício inusitado do cordel sci fi perdeu um pouco a novidade, a narrativa ficou tediosa. A obra também podia ser melhor adaptada. Ela possui grandes buracos narrativos e para quem não conhece a história fai ficar difícil compreendê-la de forma satisfatória. A minha impressão é que a história foi simplificada demais para atingir um público infantil, quando poderia ter uma adaptação mais cuidadosa.

E por mais que eu compreenda a necessidade de remuneração do autor e os esforços da editora Nova Alexandria, eu não acho 25 reais o preço justo por um livro de 48 páginas que se lê em pouco mais de meia hora, cordel ou não cordel. Ainda mais para um formato com histórico de grande acessibilidade popular devido também ao preço. No evento literário no qual eu encontrei o livro, alguém levantou essa questão e os cordelistas responderam que os tomos são muito comprados pelo sistema de educação para ajudar a difundir o cordel nas escolas, portanto ele não estaria sendo “elitizado”. Enfim talvez seja bom do ponto de vista da educação, mas não estou tão certo se é para os consumidores em geral.

Eu desejo muito que esse renascimento do cordel dê certo, pois tenho grande apreço por ele e considero esse formato um patrimônio cultural do nosso país. Também tenho grande respeito pelo movimento cordelista, muito ativo em São Paulo, e pelos autores que ajudam a manter viva essa nossa poesia, mas Viagem ao Centro da Terra em Cordel não me agradou e fica difícil recomendá-lo a amantes do cordel ou da ficção científica.

Quem quiser saber mais, leia esta matéria sobre esse movimento de adaptações em cordel que eu fiz para a Livraria da Folha.

o bom: ilustrações interessantes

o ruim: preço; buracos narrativos; adaptação simplista

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O Barão nas Árvores; de Italo Calvino

OBaraoNasArvoresUm menino que sobe nas árvores e jura nunca mais descer e passa a vida entre galhos e folhas

O Barão nas Árvores é um romance de Italo Calvino que narra a história de Cosme Chuvasco de Rondó, filho de nobres decadentes da Itália do final do século 18 que sobe nas árvores para não ter que comer escargots e jura nunca mais descer. O que começa como uma teimosia infantil vai ganhando proporções absurdas conforme o jovem barão passa toda a tarde nas árvores, atravessa a noite, os dias, meses e anos até envelhecer sem nunca mais botar os pés no chão.

E se engana quem acha que ele se tornou um ermitão. O jovem se torna surpreendentemente ativo no cotidiano da região de Pelumbria e acaba tendo uma vida muito mais plena do que o restante de sua família, que permaneceu grudada ao solo. Ele fica um tempo no quintal de sua casa, mas logo se aventura no pomar vizinho e para o bosque. Cosme aprende a caçar com um bassê que encontra – chamado de Ótimo Máximo – conforme cresce vive casos amorosos entre os galhos, escreve tratados de filosofia política, faz obras de engenharia para canalizar uma cachoeira para entre os galhos, troca correspondências com Voltaire e Rousseau, fica amigo de um bandido famoso, enfrenta exércitos invasores da Áustria, acompanha saqueadores de pomares e até mesmo enfrenta piratas maometanos em alto mar sem nunca colocar os pés no deque do navio.

O autor faz um excelente trabalho de dar vida a um mundo arbóreo repleto de galhos, espinhos, ramos, frutos, animais e cachoeiras. A todo o momento parece que você está observando as pessoas e os acontecimentos por cima, junto do barão. Essa capacidade de imersão do leitor em um ângulo esdrúxulo é uma das grandes jogadas de Calvino e vale a pena ser provada. O livro tem um tom despretensioso e leve, ao mesmo tempo em que traz momentos de humor e beleza bucólica.

Já a capa dessa edição da Companhia das Letras é algo que não me entra na cabeça. Porque eles escolheram para esse livro, que pede uma bela ilustração de árvores ou bosques verdejantes, colocar uma capa azul, ou roxa, ou violeta, ou lilás – o daltonismo não me permite avaliar – com alguns quadrados brilhosos? Imagino que faça parte de uma coleção, mas, enfim, me pareceu uma pena.

Tradução muito boa, dinâmica e com vocabulário pertinente, sem deixar cair o humor dos diálogos e transmitindo com beleza as descrições. Nunca me imaginei lendo uma tradução, mas sim lendo um livro. Um prazer cada vez mais raro com as traduções tabajara que encontramos por aí.

o bom: realismo fantástico; tradução boa; descrições; diálogos; humor; narrative intrigante

o ruim: capa sem sal

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A biblioteca pessoal de Neil Gaiman

Biblioteca Neil GaimanEstava conversando sobre isso um dia desses com um comparsa e resolvi colocar aqui; fotos da biblioteca pessoal de Neil Gaiman.

Construída no porão de sua casa, ela conta com livros de parede a parede, do chão ao teto, ambiente bem iluminado e essa poltrona que não deve ser nada mal. Agora faz sentido uma frase que eu li em seu blog tempos atrás: “Casa é onde os livros estão”. Se eu tivesse um retiro desses, aí que eu entocava de vez.

Clique na imagem para acessar mais informações e fotos no blog do Shelfari.

Formaturas Infernais; diversas autoras

FormaturasInfernais1Escritoras de bestsellers de chick lit se reúnem em coletânea de contos de horror em formaturas

Chick lit é um termo usado em inglês para livros voltados a leitoras adolescentes ou na faixa dos 20 a 30 anos sobre relacionamentos e repletos de referências pop do universo feminino. Exemplos desse gênero informal são séries como Gossip Girl e Diário de Uma Princesa e talvez poderíamos incluir a ridiculamente popular série Crepúsculo como uma variante chick lit de horror. Grosso modo, são comédias românticas em literatura, com formato semelhante a Sex and the City.

Formaturas Infernais (Prom Nights From Hell) é um breve livro que reúne contos de autoras de sucesso nesse gênero, como Meg Cabot, autora de Diário de Uma Princesa, e Stephanie Meyer, criadora de Crepúsculo, misturando horror e romance. E o taverneiro se propôs a adentrar onde nenhum marmanjo jamais foi para ver o que diabos essa mulherada gosta tanto nesse tipo de literatura.

A reinvenção dos romances de cabeceira

O gênero chick lit me parece ser a reinvenção dos antigos romances de cabeceira das donas de casa de outrora, aqueles com o marujo sem camisa segurando a protagonista em seus braços e com títulos do tipo “Oceanos do Desejo”; mas no chick lit voltados para mulheres mais jovens e de um contexto urbano e moderno.

O que percebi, e que talvez seja a razão tanto do sucesso quanto da aversão para livros como Crepúsculo, é que as histórias dependem muito da semelhança entre a protagonista e a leitora para funcionar. Diferente de um Dom Quixote da vida, no qual você não precisa ser um fidalgo fantasioso para apreciar, nesse tipo de literatura fica meio difícil se identificar com a personagem que tanto menciona ombros largos e olhos azuis e profundos a cada instante, por exemplo. Não digo que é impossível, mas a história é claramente estruturada com um perfil de leitora em mente.

As histórias de Formaturas Infernais puxam mais para o lado romântico do que do terror, muitas vezes tratando temas como vampiros, zumbis, demônios e fantasmas com bom humor e diálogos afiados (percebe-se aqui muita influência de diálogos rápidos de sitcoms como Friends). Diria que um única história vai para o terror de fato, O buquê, de Lauren Myracle, quando as restantes parecem desculpas para mostrar romances entre as moçoilas e os rapagões sobrenaturais. As protagonistas, por sinal, são muito parecidas em si e salvo uma ou outra diferença poderiam muito bem ser a mesma pessoa.

É uma pena que quase todos os contos parecem meio que acabar pela metade ao invés de atingir uma conclusão final. A colega que me emprestou o livro sugeriu que são autoras acostumadas a escrever séries longas e não possuem o jogo de cintura para fechar a narrativa no nocaute e não nos pontos, como é necessário nos contos, e essa observação me pareceu bem pertinente.

Agora, um sexto conto dessa coletânea poderia se chamar “O terror veio da tradução”, porque, rapaz, todas as minhas reclamações de praxe com relação a traduções tabajara infelizmente estão aqui. Não vou entrar em detalhes e exemplos, mas a tradução literal de expressões que não fazem sentido em português é um problema.

Mesmo não sendo o público-alvo de Formaturas Infernais, eu sempre aprecio breves incursões em gêneros inusitado que são minha praia e achei uma leitura muito divertida. E convidaria a todos os barbados que sentem calafrios ao ver um pôster de Crepúsculo que tentem ao menos dar uma espiadinha por curiosidade. Quando ninguém estiver olhando, é claro.

Agradecimentos à comparsa Fernanda por ter me emprestado o dito cujo.

o bom: contos criativos; diálogos afiados; um dos contos é particularmente assustador

o ruim: tradução tabajara; temas femininos que não apelam muito aos barbados; contos parecem acabar pela metade

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How to Talk About Books You Haven’t Read de Pierre Bayard

HowtoTalkAboutBooksYouHaventRead“I never read a book I must review; it prejudices you so” – Oscar Wilde

“Existe mais de uma maneira de não ler, das quais a mais radical é não abrir nenhum livro”. Essa primeira frase do primeiro capítulo já dá o tom irônico que permeia “Como Falar dos Livros que não Lemos?” (Editora Objetiva, 2008), uma obra que por trás de uma superfície de deboche esconde uma teoria surpreendentemente profunda de como nossa sociedade, e cada um de nós, deve se relacionar com os livros.

O autor Pierre Bayard comenta ainda no início que, na infeliz posição de professor de literatura francesa na Universidade de Paris, se deparou diversas vezes com o desafio de ter de comentar livros dos quais apenas ouvira falar. Salvo de questionamentos embaraçosos devido ao fato de que boa parte de seus alunos também jamais tivera passado os olhos pelas obras contempladas no curso, Bayard decidiu se aprofundar no tema da não-leitura, que segundo ele é tão mal visto quanto corriqueiro em círculos intelectuais e acadêmicos.

O motivo disso é muito simples. Se alguém não fizesse mais nada na vida além de ler, do berço ao túmulo, ele não passaria por mais do que algumas dezenas de milhares de obras. Quase nada se pensarmos nos milhões e milhões de livros que foram escritos pela humanidade até hoje, e dos milhares que são lançados a cada novo ano. Dessa forma, nem o mais fervoroso dos leitores tocou sequer uma ínfima parcela da produção intelectual da humanidade e até os maiores literatos possuem em sua formação lacunas de clássicos considerados canônicos.

Tais lacunas se tornam segredos guardados a sete chaves, pois, na sociedade ocidental, não ler é considerado motivo de vergonha e chacota. Porém, Bayard defende que discorrer sobre livros que não lemos devia ser a atitude mais natural do mundo, afinal, como foi dito, ninguém entre nós leu quase nada na realidade. O autor propõe que mais importante do que ler ou não todos os clássicos, é fundamental possuir uma “biblioteca coletiva” com livros que são criados assim que entram no conhecimento das pessoas, e não quando são lidos de fato. Ou seja, muito mais vale alguém que saiba pensar sobre ideias e livros – e aqui vale inventar tomos que não existem ou falar de clássicos que nunca o interlocutor viu – do que ser uma enciclopédia ambulante de citações e passagens.

Formas de não-ler encontradas em livros não lidos

“Como Falar dos Livros que não Lemos?” define diversas formas de não-leitura, como obras que não conhecemos, ou que folheamos, ou ouvimos falar, ou ainda que esquecemos, e fornece análises de como se portar em encontros com literatos, com o autor ou até para tentar impressionar um grande amor. Cada capítulo é relacionado com um exemplo encontrado na literatura – alguns até mesmo de livros que Bayard afirma que leu de fato.

Assim, o autor menciona o bibliotecário da sátira “O Homem sem Qualidades”, de Robert Musil, que conhecia todos os tomos de uma biblioteca com milhões de volumes sem nunca ter aberto nenhum deles, pois apenas lia livros que ensinam a catalogar outros livros. O autor toca as curiosas relações de Montaigne e Oscar Wilde com os livros. O primeiro que, devido à sua memória notoriamente falha, esquecia tudo o que lia após uns poucos anos e o segundo que sequer abria obras que ia resenhar para “não se deixar influenciar” por seu conteúdo. Até Umberto Eco faz uma aparição nas considerações do autor, uma vez que o escritor italiano, em seu romance “O Nome da Rosa”, inventou com riqueza de detalhes como seria a “Comédia de Aristóteles”, obra que foi perdida ainda na antiguidade.

No final, “Como Falar dos Livros que não Lemos?” é um ensaio bem-humorado que propõe uma forma mais leve de encararmos nossas deficiências intelectuais e merece ser lido ou não-lido por todos os amantes da literatura.

Obs: matéria criada para a Folha Online através da Livraria da Folha.

o bom: ensaio divertido e profundo; exemplos de não-leitura retirados do cinema, livros e biografias

o ruim: pouco a reclamar, uma ótima opção de leitura

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The Dogs of War; de Frederick Forsyth

DogsOfWarRomance que se revela um verdadeiro guia passo a passo de como dar um golpe militar com mercenários

Na década de 70, no país ficional de Zangaro, republiqueta ditatorial na costa oeste da África, uma corporação londrina de mineração descobre no país o equivalente a dez bilhões de dólares em platina. O problema  é como extrair os minérios, uma vez que, além do ditador ser um maluco paranóico de carteirinha, ele está mais alinhado com os russos do que com o ocidente. A solução que o líder da companhia, “sir” James Manson, encontra é contratar um grupo de mercenários e colocar alguém mais disposto a fazer negócios no lugar do atual chefe de Estado de Zangaro. Em cem dias.

O livro tem uma distribuição bem curiosa para uma obra que lida com guerrilha e mercenários. Para uma publicação de 368 páginas, até a página 350 sequer um tiro foi dado, salvo para testar se as armas estavam funcionando. E não aconteceram mais que duas mortes; um soldado zangarense intrometido e um matador de aluguel que teve a sua cabeça separada do corpo e colocada na caixa postal do patrão que o contratou para matar o líder dos mercenários. O que diabos os tais cães de guerra ficaram fazendo esse tempo todo do livro?

Ora, foram para o banco na Suíça abrir uma conta para transferência de dinheiro para comprar suprimentos, foram fundar uma empresa na Itália para registrar um barco legalmente e não ter problemas com a guarda costeira, um pulinho na Tchecoslováquia para comprar 400 mil balas de 9mm, na Bélgica para adquirir sub-metralhadoras de um ex-nazista, uma chegada no Marrocos para arranjar alguns africanos para dar uma mão na invasão e assim por diante.

The Dogs of War, lançado em 1974, é um livro que se preocupa muito mais com a logística para se equipar e invadir um país do que com a guerra em si, o que deixa transparecer o grande conhecimento do autor Frederick Forsyth, que foi correspondente de guerra pela Reuters e BBC por muitos anos, inclusive durante a guerra civil da Nigéria. Ele escreve romances desse tipo até hoje, agora centrados no Iraque. De fato, as descrições logísticas em seus romances são tão realistas que alguns governos já tiveram problemas com roubo de identidade, cujo processo é descrito em seus romances passo a passo como uma receita de bolo. Para se ter uma ideia, quando o terrorista Carlos, o Chacal, foi capturado ele tinha um livro de Forsyth na mala. Na realidade, ele recebeu seu apelido justamento por causa do romance: O Dia do Chacal.

Se você já começa o livro ciente de que ele se centra na logística, não há do que reclamar. Porém muitos compraram The Dogs of War achando que se tratava de um livro de guerra comum e se decepcionaram com a falta de ação. Um grande problema dessa versão de bolso que adquiri é que o tamanho da letra compete com o de uma bula de remédio de tão minúscula, chegando bem próximo ao ilegível.

Mas o embate final valeu sim o livro para mim. O autor conseguiu fechar com poucas e violentas páginas a história e ainda colocar uma enorme reviravolta na última página que muda completamente a compreensão das motivações das personagens sem parecer Deus ex machina. Para quem quer um livro de guerra que transmite uma tensão de ver se um grande plano vai funcionar, The Dogs of War é o livro.

o bom: realismo ao mostrar os jogos políticos e logísticos; final empolgante; reviravolta na última página muito bem aplicada

o ruim: letra menor que bula de remédio; ênfase extrema na logística e não no combate pode não agradar

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Exercício de descrição

É frio. Possui um odor que lembra o cobre.

Duas faixas grossas de metal reluzente, uma dourada e outra prateada, se estendem por linhas paralelas que lentamente dobram sobre si mesmas até formar um círculo completo. É um objeto de surpreendente peso para suas dimensões, dando uma impressão nítida de solidez ao mesmo tempo em que parece solitário quando visto na palma da mão, mas ganha familiaridade ao ser encaixado no anelar esquerdo, se aconchegando de forma natural em torno da carne macia do dedo.

Há uma inscrição em letra estilizada que gira em torno de toda a sua extensão interna. Lê-se: “De todos os filhos do mundo”. Em algum lugar anda outro anel, um pouco menor, mas também bicolor e pesado e claramente reconhecido como irmão deste primeiro, e que carrega dentro de si a segunda metade desta sentença. Uma frase dividida pela metade que pede por sua segunda parte, assim como uma vida dividida pela metade que anseia por outra que a complete.

Dentro da segunda aliança está escrito: “o nosso se chama amor”. É o refrão da letra de uma música escrita por um amigo mútuo, capaz de rompantes de genialidade em meio à sua loucura costumeira, que ouviram quando estavam se apaixonando e decidiram se casar.

Coletânea de comerciais japoneses do Schwarzenegger

No Japão, é comum celebridades norte-americanas como Brad Pitt e Tommy Lee Jones aparecerem em outdoors e comerciais na TV. O atual Governator da Califórnia teve uma presença marcante na terra do Sol nascente nos anos 80 como podemos ver nessa coletânea de comerciais japas com Arnold Schwarzenegger. A partir de um minuto a coisa começa a ficar estranha DE VERDADE.

Pui pui.

via [haha.nu]

Bar None; de Tim Lebbon

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Obra curta mistura o sobrenatural com todas as lembranças da humanidade e excelentes cervejas

Em um futuro não muito distante, praticamente toda a humanidade foi aniquilada por um vírus mortal. Sim, de novo. Mas Bar None consegue trazer algumas coisas novas a este clichê pós-apocalíptico.

A história gira em torno de cinco sobreviventes que se alojaram em uma mansão abandonada que pertencia a um arquiteto de certo renome na beira de uma cidade britânica. O motivo para a escolha da morada é simples: o local possuía uma vasta despensa com vinhos, cerveja e comida. Eles passam os seis meses após o fim do mundo se ocupando de uma horta que não está dando muito certo e tomando cerveja todas as noites, rememoriando um mundo do qual apenas restos sobreviveram.

A chegada de um motoqueiro, primeira viv’alma que encontram em meio ano, muda todas as perspectivas. Primeiro pela clara natureza sobrenatural do visitante, que após a cervejada de praxe consegue falar sozinho com todos e com todos ao mesmo tempo. Ele avisa que as coisas estão para “mudar” e que os sobreviventes precisaram viajar ao sul rumo ao Bar None, o último bar da Terra. E em pouco eles partem em uma jornada rumo ao boteco lendário atravessando os vestígios da civilização humana. Levando diversas garrafas de vinho, é claro.

Os personagens são bem construídos, mostrando traços de suas vidas passadas a cada momento. O narrador, ávido amante do suco de cevada, faz diversas reminiscências de sua vida baseado nas diferentes marcas de cerveja que aprecia. Assim, quando toma um gole de London Pride se lembra quando provou da marca junto da esposa Ashley em uma passeata contra a guerra do Iraque, ou um gole de Double Drop traz de volta o dia que foram a um pub famozinho do interior e decidiram ter filhos. As cervejas são particamente um personagem à parte, como podemos ver no breve trecho traduzido abaixo:

Theakston’s Old Peculier, profunda e escura e pesada, uma cerveja de churrasco com um toque achocolatado e um sabor final marcante, semelhante ao vinho, uma cerveja complexa, rica e poderosa como a pele de Ashley, os nuances da sua respiração, a gota de suor em sua nuca quando fazíamos amor. Theakston’s Old Peculier, a garrafa marrom ainda molhada e fria mesmo depois de estarmos sentados por mais de uma hora no jardim do Paul, observando-o virar a carne enquanto ouvíamos à fita demo da sua banda e Ashley ao meu lado, tomando sua própria bebida e me tornando o centro do universo sem sequer olhar para mim.

O autor Tim Lebbon cria muito bem uma atmosfera de embriaguez perpétua, ligada à nostalgia de um mundo que não mais existe. É um livro sobre lembranças, quase como se ao final de tudo restasse apenas uma mesa de bar com pessoas rememoriando as vidas de toda a humanidade. O grupo encontra respostas, não muitas, durante sua jornada ao Bar None e diversos percalsos se apresentam ao perceberem que eles não são os últimos sobreviventes assim como a exata natureza do cataclisma que limpou o planeta dos seres humanos.

Bar None é um daqueles casos que até quem não tem preferência por ficção sobrenatural pode curtir, uma vez que a ênfase está nos personagens e lembranças. Diria que é um livro pós-apocalíptico que até o Mussum apreciaria.

o bom: personagens intrigantes; belas descrições; um ar criativo ao gênero pós-apocalíptico; suco de cevadis

o ruim: um pouco Deus Ex Machina, sem explicações claras do que aconteceu, mas bem cabível dentro da proposta de enfatizar as memórias

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Ender’s Game; de Orson Scott Card

EndersGameUma criança tem sua infância sacrificada para virar um gênio militar e salvar a humanidade da extinção

Lançado em 1977, Ender’s Game foi o livro que lançou a carreira de Orson Scott Card. A obra se ambienta em um futuro não muito distante, após a humanidade ter encontrado, e quase ter sido devorada, por uma raça alienígena de aparência insetóide. Os seres humanos se preparam para a iminente invasão treinando crianças para o comando desde os primeiros anos de idade. E o mais promissor de todas as crianças é Ender Wiggin.

Mas Ender’s Game não é uma simples fábula da perda da inocência. As crianças são retratadas como bem maldosas, espancando Ender a cada oportunidade por inveja do seu papel de queridinho dos adultos. O próprio irmão mais velho de Ender, que foi a primeira grande promessa para os militares e cujo passatempo corriqueiro era tirar o couro de esquilos ainda vivos, bate repetidamente em Ender e até lança ameaças bem diretas de assassinato. É assustador ouvir um garoto de oito anos contando ao irmão como um dia vai matá-lo e fazer tudo parecer um acidente e depois falar que estava brincando. Estava?

Esse tema do ciúme é muito recorrente e acompanha Ender ao longo de sua semi-infância quando ele vai estudar  em uma plataforma orbital, onde aprende a pensar taticamente sem as referências espaciais da gravidade. A tensão entre Ender e os demais alunos é até mesmo incentivada pelos professores, que parecem encarar o conflito como parte do aprendizado do futuro general.

O personagem de Ender é bem construído. Card cria de forma convincente a mente de um jovem napoleãozinho, com seu pensamento tático genial sempre presente, seja para destruir exércitos adversários durante os jogos de guerra ou escapar de um linchamento no chuveiro. Também é muito bem retratada a forma como o protagonista enfrenta a tensão, estando sempre à beira de um colapso e ainda tendo que enfrentar fantasmas do passado e o peso de estar sendo treinado para salvar uma humanidade que o trata pior do que o seu próprio inimigo, que para todos os efeitos é muito mais parecido com Ender do que seus colegas humanos.

Ender’s Game é um dos grandes clássicos da ficção científica e pode ser comparado como uma espécie de Harry Potter sci fi, só que lidando com alguns temas mais sombrios. A obra, no entanto, tem lá algumas barrigas que poderiam ser cortadas, como a história paralela do irmão e a irmã de Ender tentando ganhar poder político em fóruns de uma espécie de internet. As agruras do jovem Ender também ficam repetitivas depois de certo tempo e acabam se tornando mais do mesmo depois da metade da história do que acrescentar algo à trama.

Mas a narrativa de Card compensa e por mais que ela não seja uma história perfeitinha, esses temas paralelos ajudam a dar um sopro de originalidade no que poderia ser uma ficção científica água com açúcar.

o bom: personagem central bem construído; crianças violentas; descrições interessantes de pensamento tático

o ruim: algumas barrigas na história; algumas tramas poderiam ser cortadas; caracterização perde a forma na segunda metade do livro

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